Caderno 1

Lampião confronta Força Pública em Serra Grande, distrito de Varzinha no município de Serra Talhada/PE.

04 novembro 2016
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(*) filhoneto@bol.com.br

*Antônio Neto

O ápice do “Cangaço” ocorreu no ano de 1926. Foi nesse ano que Virgolino Ferreira revelou para o Brasil e o mundo as suas qualidades de guerrilheiro e de exímio estrategista. O seu “modus operandi”  assemelhava-se às táticas de guerrilhas utilizadas por Henrique Dias, Vidal de Negreiros, João Fernandes Vieira, cap. Antônio Cardoso e outros líderes que lutaram  para a expulsão dos holandeses de Pernambuco.

Lampião não brigava à toa. Não procurava as volantes para confrontá-las, quando isso acontecia era de emboscada. Quase todos os seus combates com a Força Pública foram, estrategicamente, bem planejados e tramados de modo a ficar sempre em vantagens deixando o inimigo em inferioridade. No embate da Serra Grande não foi diferente. O Rei do Cangaço sabendo que as volantes chefiadas por tenente Higino Belarmino, sargento Arlindo Rocha, cabo Manoel Neto, Sargento José Olinda e outros graduados, não menos valentes, andavam ao seu encalço, preparou uma grande armadilha para recepcioná-los. Escolheu inteligentemente um local onde podesse encurralar o contingente que o perseguia, de modo a deixá-lo sem ação para a luta. Inegavelmente Lampião era um mestre em estratégia.  O  lugar  escolhido  foi o estreito  do desfiladeiro da Serra Grande, municipio de Serra Talhada no estado de Pernambuco, onde foram posicionados  cangaceiros nos  flancos,  na frente e atrás da garganta e no alto das encostas íngremes e de difíceis acessos. Os blocos de pedras existentes na cumeada das abas montanhosas serviam de trincheiras e, ainda, haviam fontes de água, enquanto que no  talvegue do desfiladeiro, onde se encontrava a volante, não  existia uma gota de água sequer, totalmente desfavorável à tropa da Força Pública ali em ação.  O calor  insuportável e a sede  desanimavam os  soldados para a  luta.

A “Batalha da Serra Grande” foi a mais sangrenta da história do Cangaço.  Conforme consta dos autos essa refrega  foi uma verdadeira operação de guerra. De um lado, Lampião com mais de  90 cabras armados e bem municiados, conforme listados  nos autos.  Do outro a Força Pública com 297 homens armados, entre soldados e graduados, prontos para o enfrentamento. Por volta das 9 horas da manhã do dia 28 de  novembro de 1926, a  Força de Pernambuco chegou ao estreitamento do vale  da Serra Grande. O tenente Higino Belarmino, o cabo Manoel Neto e outros graduados que vinham à frente da tropa resolveram parar naquele local e, logo perceberam que haviam caído em uma grande cilada.  Os  graduados, entre si, discutiram o assunto e alguns sugeriram que em  virtude do alto risco deveriam  recuar, enquanto outros opinavam que deveriam ir em frente. O tenente  Higino e outros chefes de volantes, compreenderam que apesar da superioridade numérica de praças, a posição dos combatentes em relação o posicionamento do grupo de cangaceiros os deixavam em condições desfavoráveis, contudo, consideravam que bater em  retirada era demonstração de fraqueza  e desmoralização para aqueles bravos  guerreiros. Heroicamente  a  tropa avançou e logo nos primeiros passos recebeu uma violenta descarga de balas dos bandoleiros, morrendo quatro soldados e ficando outros tantos feridos. O tiroteio era  pesado, as balas vinham de cima para baixo como chuva grossa caindo no chão. Vários praças pavorosos abandonaram o campo de batalha, principalmente os que vieram de Recife. O fogo se prolongou  até por volta das 17h30min. Tudo indica que o  tiroteio  somente cessou depois que  Antônio Ferreira caiu na mira do rifle do tenente Euclides Flor ficando gravemente ferido conforme relatou em  depoimento uma  das testemunhas.

Nesse tiroteio,  dez soldados  morreram e quatorze, entre praças e graduados, saíram  com  ferimentos graves e leves  de acordo com o  BM nº 262 da Força Pública de Pernambuco.  Os mortos foram Luiz Torres Bandeira (1), Severiano Pereira da Silva (2), Pedro Aureliano da Silva (3), *Targilindo Rocha, no BM nº 262 da Força Pública  ou Targino Ferreira Primo, no processo da Justiça(4); Octávio de Sá Araújo (5), João Terto (6), José Dias dos Santos (7), Ângelo Ignácio da Silva (8), José Arcôncio dos Santos (9) e Antônio Braz de Lima (10). Os feridos foram: Sargento Arlindo da Rocha (1), 2º sargento José Olinda de Siqueira Ramos (2), Manoel de Souza Neto (3), Eduardo Pinheiro de Souza (4), Cicero Aristides Pereira (5), José Francisco Bezerra (6), Cabo Vicente Ferreira da Silva (7), José Caetano de Souza (8), Antônio Basílio de Souza (9),João Antônio de Souza(10), Luiz José de Souza(11), Antônio Alves de Lima(12), Agamenom Coelho Magalhães(13) e Florentino Fernandes da Silva(14).

Do lado dos cangaceiros, disseram as testemunhas Manoel Abílio de Sá e José Jacob de Lima que em  consequência do combate da Serra Grande  morreram seis  cangaceiros, entre eles, Antônio Ferreira, Chumbinho, Jurema, Benedito Domingos, Félix Preto, Cebola e outros que não souberam dizer os nomes. A historiografia do cangaço diz que  Antônio Ferreira morreu, acidentalmente, alguns dias  depois  do tiroteio de Serra Grande pela arma de Luiz Pedro do Retiro(braço direito de Virgolino). O mesmo teria ocorrido  com o cangaceiro  Ingnácio  de Medeiros, o Jurema, assassinado  por Lampião, nos primeiros dias do mês de dezembro de 1926, no municipio de  Jardim no  estado do Ceará. Todavia, as testemunhas afirmaram  que os dois teriam morridos em razão de ferimentos sofridos no tiroteio de Serra Grande. Esses dois fatos, são no mínimo estranhos e curiosos, que merecem uma  atenção especial dos historiadores do cangaço. De acordo com as testemunhas que participaram do referido tiroteio, tanto Lampião como  os  seus cabras durante  o enfrentamento, gritavam  que estavam matando “Macacos” com balas adquiridas em Vila Bela. Essa atitude  do bandoleiro nos leva a três hipóteses: 1. Lampião estava vangloriando-se do seu feito. 2. Queria prejudicar o seu fornecedor de munições. 3. Teria a intenção de embaraçar a vida de alguém daquela cidade que não cedia aos seus caprichos.  Esse é um assunto que merece um  artigo à parte.

Conforme consta dos autos do processo-crime de Serra Grande, o grupo de Lampião era composto dos cangaceiros : 1.  Virgolino Ferreira, vulgo  Lampião(chefe do bando), 2. Antônio Ferreira, 3. Vicente Feliciano, 4. Antônio José da Silva (Beija-Flor), 5. Antônio Frazão (Pai Velho), 6. Luiz Pedro, 7. Hermínio Xavier da Silva (Chumbinho), 8. José de Souza (Tenente), 9. João Soares (Jurity), 10. João Mariano (Andorinha),11. Joaquim Mariano,12. Manoel Mariano,13. Severino da Silva,(Nevoeiro,14. Sabino Gomes, 15. Isaias Vieira (Zabelê), 16. Manoel Nogueira, 17. Manoel Marcolino (Bom de Vera), 18. Ignácio de Medeiros (Jurema), 19. Felix Preto, 20. Caetano da Silva (Moreno), 21. João Donato (Gavião), 22. Pedro Gomes, 23. João Henrique, 24. Antônio Rosa, 25. José Lopes da Silva (Mormaço), 26. João Cesário (Coqueiro), 27. Manoel Antônio, 28. Francisco Antônio, 29. José Marinheiro, 30. André Marinheiro, 31. Antônio Marinheiro, 32. Antônio Caboclo (Sabiá), 33. Benedito Domingos, 34. José Angélica, 35. José Generosa, 36.  Josias Vieira (Gato), 37. José Luiz (Zé Procópio), 38. José Preto, 39. Cypriano(Cypriano da Pedra), 40. Antônio Coelho , 41. José Pedro da Silva(Barba Dura), 42. José dos Santos (Seu Chico), 43. Jorge Salú (Maçarico), 44.Raymundo da Silva(Aragão, 45. Antônio França, 46. João José da Silva, 47. Nunes Marcelino, 48. Antônio dos Santos (Cobra Verde), 49.Antônio da Silva (Moita Braba), 50. Antônio Mansinho (Cuscuz), 51. Marcelino Nunes da Cruz, 52. Luiz Pedro do Retiro, 53. José dos Santos (Três Pancadas), 54. Nunes Magalhães (Pensamento), 55. João de Brito, 56. Euclydes Bezerra (Criança), 57. Manoel Vieira da Silva (Lasca bomba), 58. Antônio Maneca, 59. João Felix (Gasolina), 60. Urbano Pinto ,61. Antônio de Tal (Romeiro), 62. Genésio  de Tal (Genésio Vaqueiro), 63. Vicente Penha (Vicente Preto), 64. Antônio de Tal (Antônio Caboclo), 65. Pedro de Tal (Pedro Quelé), 66.José de Tal(José Vaqueiro), 67.Manoel de Tal (Manoel Boi), 68. Sebastião de Tal (Cancão), 69. Félix de Tal (Matta Redonda), 70. Damásio de Tal (Chá Preto), 71. Domingos dos Anjos Oliveira (Serra de Uman), 72. Antônio de Tal(Machinista), 73. João Marcelino(Vinte e dois), Domingos de Tal,74. Laurindo Soares(Fiapo),75. José de Tal(Tempestade), 76, Curisco, 77. Caracol, 78.Pedro Gomes, 79. Barra Nova, 80. Ricardo de Tal,81.João de Tal, 82. Firmino de Tal, 83. Enock de Tal, 84.  Pinica Pau, 85. Azulão, 86. Ezequiel Ferreira, 87. Trovão, 88. José Benedito, 89.Epiphanio, 90. Francisco Miguel(Pássaro Preto), 91.José Leite de Queiroz(jararaca), 92. Albino e outros que não se sabem os nomes.

Apesar da Lista de cangaceiros que  faz parte dos autos do processo-crime referente ao confronto da Força Pública de Pernambuco com o grupo de Lampião, no lugar Serra Grande no municipio de Serra Talhada,  constar 92 cangaceiros, o libelo-crime acusatório do referido  processo faz referência apenas 72 bandidos. Escrevi o que li nos autos  em questão e no boletim nº 262, da Força Pública de Pernambuco, portanto, à luz da Lei.

Fontes:

  1. Memorial da Justiça de Pernambuco. CX. 1017 : pasta . Vila Bela – 1928- Processo CR.
  2. Boletim nº 262, da Força Pública de Pernambuco em  1/12/1926. Arquivo Geral da PMPE. Quartel do Derby Recife/PE.

                               *Antônio Neto é pesquisador, escritor, dicionarista, biógrafo e poeta.

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