Caderno 1

Era uma vez… um pica-pau amarelo

11 outubro 2016
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O meu livrinho de cabeceira contava histórias da época em que os animais falavam. Fábulas quase esquecidas, onde num misto de curiosidade e espanto aprendemos a soletrar Era Uma Vez:

Era uma vez… Quando os animais falavam, muito antes de os homens chegarem às imensas florestas brasileiras”, mal iniciei e Fred interrompeu, saltando na cama.

Ôba! Tem leões e ursos nessa história?”

Não, pois se passa no Brasil, não ouviu? Mas olha que pode ter onça pintada!”

Como sempre acontecia quando eu lhe contava histórias, Frederico inclinou a cabeça sobre as mãos e cerrou os olhos, desta vez com tanta força que parecia estar em transe.

Não entendo por que você fecha os olhos assim

Para entrar na sua história eu preciso fechar os olhos e sonhar! Você sonha de olhos abertos? Continue, continue.”

desenho-barto“Ah, então, como eu ia dizendo, muito, muito tempo atrás, voavam livres na mata várias espécies de pássaros, dentre eles o pica-pau. Tinha o pica-pau-rei, o pica-pau-anão, o pica-pau-carijó, o pica-pau-coleira e muitos outros. Todos tendo em comum o costume de ficar batendo o bico com força nos troncos das árvores e de exibir o penacho no alto da cabeça. O pica-pau-amarelo preferia as árvores cheias de formigas, insetos e outras iguarias. Nelas ele fazia o seu ninho e cantava a todo pulmão para ser ouvido até onde a vista alcançava e atrair uma companheira. Tudo ia bem até que, com o passar do tempo, as árvores começaram a desaparecer, obrigando o pica-pau-amarelo a voar lonjuras em busca de um lugar onde pudesse descansar suas asas. Toda a floresta estava virando pasto, pasto verde e suculento que alimentava os bois, vacas e bezerros que ali se reuniam em número cada vez maior. O pica-pau-amarelo, estranhando tudo aquilo, certa vez tomou coragem e foi conversar. Dona vaca, ele perguntou, eu não entendo como vocês ficam nessa felicidade toda comendo capim. Onde estão as árvores? Onde estão os cupinzeiros? Os macacos que saltavam de galho em galho, para onde foram? Dona Vaca, com a boca cheia de capim, respondeu assim: Ora, o senhor não sabe? Muu… muu… nhac, nhoc… As árvores maiores viraram casas, móveis e cercas; outras plantas, que dão frutos, ouvi dizer, estão no pomar do fazendeiro… muu, muu… Porém, se você aparecer por lá assim, sei não, tome cuidado para não acabar dentro de uma gaiola; já os cupins, estes tiveram de se mudar rapidinho com medo do nosso amo, que botou pra correr as formigas cortadeiras. Dizem que ele se chama pes… pes… ai, ai, ai, minha cabeça, como pude esquecer o danado do nome? Esse tal de pes-pes é o seu amo?, reperguntou o pica-pau-amarelo, agora mais curioso do que nunca. Dona vaca cuspiu um pouco de capim, pois estava com a boca cheia, para responder: O meu amo se chama Valdomero Fortunato Ricaço da Silva. Pes… pes é um remédio que ele usa para as plantas. Remédio? A vaca, então, depois de enfiar a língua no nariz e balançar as orelhas, teve um estalo: Pes… ti… ci… da! Arre, até que enfim lembrei-me! Todos esses bichinhos miúdos não suportam o fedor do remédio; muitos morrem na hora, os que escapam vão embora. O pica-pau-amarelo assustou-se. Todos os cupins e formigas? To-dos? E isto é bom para o seu amo? E porque andava muito despreocupada, dona vaca tornou a encher a boca enquanto contava: Cupins, formigas, grilos, joaninhas, gafanhotos, abelhas etc etc! É um santo remédio para o capim, sim senhor, pois não para de crescer e nos engordar. Quanto mais gordinhas ficamos, mais feliz e satisfeito fica o nosso amo… muu, muu… nhac, nhoc… Como nunca teve dono e sempre voou livre pela floresta, o pica-pau-amarelo disse, por fim: Me responda, dona vaca, o que seu dono, digo, o seu amo, irá fazer depois que a senhora comer todo esse capim e ficar redonda? Aliás, todas as vacas ali reunidas haviam se tornado balofas, e caminhavam com uma certa dificuldade. Ainda não sei, respondeu a vaquinha. Mas em breve irei descobrir… muu… muu. E seguiu em frente, gingando as ancas pra lá e pra cá, indiferente ao seu destino”.

Agora vinha a segunda parte da história.

“O pica-pau-amarelo resolveu partir em busca das árvores e dos insetos. Voou o dia inteiro, e quando já estava muito cansado avistou algumas árvores amontoadas numa praça da cidade, cercadas de asfalto, do rumor e da fumaça dos automóveis. Espremidas, elas mal podiam esticar os braços, pois logo vinha alguém reclamar que estavam invadindo as janelas dos edifícios. Mas quando as pessoas viram chegar o pica-pau trinando alto e bicando com força a madeira, por um momento interromperam o que estavam fazendo. Acharam muita graça com o alarde no meio da folhagem. Não sabiam que aquela era a maneira de o pica-pau procurar comida e certificar-se do abrigo. Nem que os pássaros muitas vezes cantam de desespero. Com a chegada de outros pica-paus, as pessoas acharam que eles estavam muito felizes e fizeram uma grande placa assinalando que aquela era a Praça do Pica-Pau Amarelo – na vã esperança de torná-lo um residente ilustre. Só não contavam com o fato de que as pobres árvores, espremidas entre o asfalto e o concreto, eram atacadas por parasitas, fungos e outras pragas que a gente nem sequer ouviu falar. Sem cuidados, elas perderam a noção das estações e não deram mais frutos, restando ao pica-pau-amarelo buscar outras paragens cada vez mais distantes, até não serem mais vistos ali. Nem ouvidos. A praça se rendeu ao ronco tenebroso da cidade. Do pica-pau, restou só a placa, que nem sequer era amarela, triste e sem vida, tinha a cor de ferrugem.”

 

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Redação Caderno 1

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